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O mito do gato vilão que carrega toxoplasmose!

Quem aqui já grávida e com gato(s) em casa? Com certeza que ouviu pelo menos uma dezena de vezes algo parecido com “Agora que estás grávida não podes ter o gato em casa” ou “sabes que os gatos podem pegar doenças às grávidas”.

A verdade é que a probabilidade de contrair toxoplasmose é muito mais fácil por ingerir alimentos crus e mal lavados do que através do seu gato. 

Os maiores cuidados a ter é confirmar através de análise se é imune à toxoplasmose (e que faz parte das primeiras análises passadas a todas as grávidas ou até antes de engravidarem caso a gravidez seja planeada), ter cuidados básicos como lavar bem as mãos e, se possível, deixar os cuidados com a caixinha de areia para outra pessoa (ou em alternativa usar luvas, mas corretamente). 

Só isso!

Neste artigo que segue, Gracy Marcello, médica veterinária, explica o que é a toxoplasmose, como se transmite, qual o papel do gato nessa transmissão e os cuidados a ter na gravidez para evitar o contágio.

Afinal, o que é a toxoplasmose?

A toxoplasmose é uma doença infeciosa, cujo agente é um protozoário, o Toxoplasma gondii e que tem como hospedeiro definitivo os felinos e por hospedeiros intermediários qualquer outro animal homeotérmico (aqueles que são capazes de regular sua temperatura independentemente da temperatura ambiental), inclusive o gato. Isso quer dizer que o gato é a única espécie capaz de se contaminar com o protozoário pela boca e permitir sua reprodução no seu intestino e eliminá-lo nas fezes. Nos outros animais, inclusive em nós, seres humanos e nos gatos numa infeção posterior à primeira, quando o protozoário é ingerido, ele passa pelo intestino e através da nossa corrente sanguínea, faz cistos em outros pontos do organismo, principalmente nos músculos, nos olhos e no cérebro. Podendo ou não, dependendo da sua localização, causar sintomas.

Qual o ciclo da doença?

O gato infetado elimina o cisto nas fezes, que se não forem apanhadas e descartadas corretamente, podem contaminar o ambiente, a água, hortaliças (pensem em gatos que ficam soltos nas hortas). Esse cisto precisa ficar no ambiente cerca de três dias até se tornar infetante para que outro animal venha ingeri-lo. 

Quando outros animais, nós seres humanos, o cão, o gato a partir da segunda infeção, os bovinos, ovinos, suínos e até animais como ratos comem alimentos contaminados pelas fezes de gatos que eliminaram o cisto nas fezes, estes infetam-se criando cistos nos músculos, olhos, cérebro e outros órgãos. 

O gato vai se infetar quando comer carne crua ou mal passada de animais que em vida foram contaminados e fizeram o cisto na musculatura, quando caçar pequenos roedores ou quando comer algum alimento contaminado com fezes de outro gato que eliminou o cisto nas fezes. 

O gato pode também nascer infetado, caso a mãe dele tenha adquirido a doença na gravidez. Os outros animais enquanto hospedeiros intermediários infetam-se da mesma forma, ou comendo carne crua ou mal passada, ou outros alimentos crus (hortaliças e verduras) contaminados com fezes de gatos.

Do livro Infectious Diseases of the Dog and Cat, autor Craig E. Greene.

O gato só é capaz de eliminar os cistos nas fezes uma única vez em toda a sua vida, na fase aguda da doença durante cerca de 15 dias, já que na próxima vez em que ele ingerir o cisto vai possuir defesa imunológica (anticorpos) contra o toxoplasma e não vai permitir a sua multiplicação no intestino. Portanto, passa a comportar-se como qualquer outro animal. A exceção ocorre em casos em que o gato esteja com o sistema imunitário comprometido, como é o caso dos felinos que possuem doenças virais como a leucemia felina e a “SIDA” felina.

Portanto, é importante ressaltar que para um gato de casa ou apartamento, que só come ração e nunca comeu carne crua, a probabilidade de infeção é remota e mesmo que ele venha a adquirir o protozoário, só vai eliminá-lo nas fezes na primeira vez em que for infetado. O gato normalmente passa pela primeira infeção sem demonstrar sintomas, pode ficar um pouco incapacitado, mais quietinho, ao ponto de o dono nem perceber.

Sintomas nos seres humanos

No papel de hospedeiros intermediários, nós, e outros animais inclusive o gato, podemos apresentar sintomas dependendo da localização do cisto, como alterações oculares, descoordenação, convulsões, icterícia (pele amarelada), entre outros.

Para as grávidas, o problema maior é transmissão do parasita via placenta o que pode causar aborto caso a infeção ocorra no início da gravidez ou formação destes mesmos cistos no feto. É importante ressalvar que nenhum outro animal é capaz de transmitir o cisto nas fezes além do gato, portanto, os cães não se envolvem nesse processo. Nós só conseguiríamos adquirir o protozoário a partir do cão caso venhamos a ingerir sua carne crua ou mal passada. E como o hábito de comer carne canina é um hábito chinês, nós portugueses não corremos esse risco. O mesmo serve para os pombos. Eles são capazes de transmitir outras doenças importantes, mas a toxoplasmose não.

Para nós adquirirmos o protozoário a partir das fezes do gato que mora em nossa casa, temos que ingerir cistos que ficaram no ambiente por 3 dias ou mais a ponto de se tornarem infeciosos. Uma possível via de contaminação é o próprio pelo do gato, já que o gato tem o hábito de ser lamber, pode eventualmente lamber a região ao redor do seu ânus e espalhar o cisto pelo seu próprio pelo. Ao acariciarmos o gato nessa condição específica, podemos adquirir o protozoário, caso venhamos a levar a mão à boca em seguida. O mesmo risco ocorre quando os gatos se deitam nas nossas camas, podendo encostar a região do ânus nos lençóis. Entretanto, a maior via de contaminação da toxoplasmose humana é a carne crua e mal passada (bovina, suína, de frango) e hortaliças e verduras mal lavadas e higienizadas.

O exame que as mulheres grávidas fazem de rotina para saber se já tiveram a toxoplasmose ou estão atualmente com a doença é a sorologia. Normalmente, analisam dois parâmetros diferentes, a IgM (anticorpo de infeção recente) e a IgG (anticorpo de memória). Caso dê IgM  e IgG negativos, a grávida nunca teve contato com a toxoplasmose e deve tomar cuidado com as formas de infeção para não adquirir a infeção durante a gravidez. Caso dê IgM positivo, significa que a gestante está atualmente infetada e isso é um risco para a gravidez. Caso dê apenas a IgG positivo é bom, pois a grávida já teve contato com o Toxoplasma, provavelmente passou pela doenças sem sintomatologia, tem algum cisto pelo organismo mas não lhe causou mal algum e o melhor, caso venha a ter contato com o cisto agora, durante a gravidez, o seu sistema imunológico vai-se lembrar do parasita e eliminá-lo antes que ele venha a formar cistos na sua placenta ou no seu bebé.

Resumidamente alguns cuidados básicos a adotar para se proteger da doença são:

  • manter o seu gato saudável (quando souber da gravidez ou quando planear uma gravidez, leve seu gato ao seu veterinário de confiança e peça para fazer um check-up incluindo um exame clínico detalhado; exames de sangue como hemograma; sorologia para toxoplasmose, o mesmo feito às grávidas, para saber se ele já teve a doença alguma vez e garantir que ele não vá precisamente agora ter e eliminar nas fezes; exame para diagnosticar as doenças virais citadas acima que podem causar deficiências no sistema imunológico do seu gato fazendo com que ele possa voltar a apresentar os cistos nas fezes)

  • não dar carne crua ao seu gato

  • não permitir os hábitos de caça ao seu gato

  • oferecer ao gato apenas água filtrada ou fervida

  • retirar as fezes da caixa de areia assim que forem detetadas, evitando que fiquem por mais de três dias no ambiente, tempo que os cistos necessitam para serem infeciosos por via oral. O ideal é pedir para que outra pessoa da casa o faça evitando que a grávida tenha contato com as fezes.
  •  pedir a outra pessoa para escovar diariamente o pelo do gato, retirando os cistos que ele possa ter espalhado no pelo ao lamber.

Como mencionado anteriormente, para a grávida é importante fazer os exames recomendados, não comer carne crua ou mal passada, não comer frutas, verduras ou hortaliças cruas sem saber a procedência (por exemplo nos restaurantes) e lavar bem estes mesmo alimento se os comer em casa.

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Posted in Desenvolvimento do Feto, Dicas e Cuidados na Gravidez, Gravidez e Pós-Parto

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