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A Continuação

Palavra de Mãe

CONTINUAÇÃO

Prequela. Ou Gravidez.

Espantem-se. Descobri há muito pouco tempo que afinal não conheço a Tânia há dezoito anos. E também eu fiquei espantada. As datas, os números, meses ou anos de nada valem quando chega o momento em que realmente atravessamos corpos e vemos alma, raízes e cores. Não sei precisar ao certo o lugar e o tempo desse instante. Desconfio que fiz a travessia quando ela se fez mãe. E não, a vida dela não se iniciou ou terminou e muito menos se balizou ali. Houve, antes, uma espécie de relançamento. De todas as Tânias que ela tinha sido, mas, acima de tudo, de todas as que ainda queria ser. Carregar e parir o primeiro filho e depois a mais nova alargou-lhe o coração. Direcionou-o. E foi quando ela investiu, cresceu, percebeu que eu a vi. E todos os dias continuo a vê-la melhor. E a espantar-me. Espanto-me nas noites mal dormidas, no desejo vulcânico de querer aprender e ensinar. Nos caminhos pouco cimentados e nas aventuras que a tiram de tapetes confortáveis. A Tânia vê-se, faz ver e faz-me vê-la. A sua dimensão no mundo da maternidade é tão vasta que, quando a olho, a ela, essa floresta sem fim, sinto e sei que se encontrou com a sua missão. Um bocadinho de mim faz parte deste endereço. O meu bocadinho na escolha do nome. O bocadinho de mim que hoje vos apresenta esta morada. Pelo caminho, chorámos alto, rimos mais alto ainda, brindámos sem medo de partir copos, casámos gente do coração, enterrámos corações da nossa gente, batizámos novos e descobrimos quase juntas uma gravidez. E haverá sempre em mim, no sangue que realmente me importa e que é feito de história e partículas de vida, amor de tia pelos seus dois filhos, o meu Magic-Mike e a minha Laura-Linda. Bocadinhos de gente espantosa que, um dia, saberão que o foram muito pela Mãe que tiveram. Espantem-se com esta Tânia-Mulher que continua a nascer todos os dias.

Obra. Ou Nascimento.

E, assim, desses seus nascimentos, dessa constante janela em que se escolhe estar para não ganhar mofo do interior, do marasmo e do vício, germina o «Palavra de Mãe».

M-Ã-E. Morada. Amor. E embate.

M-Ã-E. Missão. Atordoamento. E encontro.

M-Ã-E. Movimento. Alimento. E êxtase.

Sequela. Ou criação.

Mãe. A palavra que, de tão curta, é incrivelmente longa. Tão longa quanto o caminho. Ser-se Mãe, essa ligação a centenas de postes de alta tensão, é uma jornada bonita. De redenção. De crescimento e descoberta. E de continuação. Mas é também demorada. Dolorosa. Sem legislação para tudo o que o coração sente. Sem barómetros coordenados. E a primeira palavra de mãe é que não haverá rótulos, preconceitos ou julgamentos para a voltagem de cada uma. Aqui, encontramo-nos, não nos isolamos. Aqui, somo-nos, não nos dividimos. Mas que não se espere um livro impecavelmente encadernado. E a segunda palavra de mãe é essa mesma: se buscarem o perfeito, o ideal, um modelo qualquer que ainda não existe, não é aqui. Porque aqui tenta-se. Revira-se. Nesta morada, a casa faz-se devagarinho. A terra à volta está por lavrar. E está cheia de colos defeituosos, com dúvidas, mas sempre com o poderoso amor. Por isso, o juramento é só um: amar com todos os cabos ligados, sabendo que muitas vezes vamos cortar o errado. Tu, Mãe, que podes ter tanto a dizer, tanto a perguntar, tanto para chorar, rir ou partilhar, no meio de desesperos e certezas, bate aqui. A porta está aberta. Palavra de Mãe!

P(ós)S(equela): Não sou mãe, mas sou filha e recebi a melhor de todas as moradas: o embalo da minha. Mãe, este texto e tudo o que eu faço é sempre e também para ti.


Sara Sampaio Simões

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Posted in Maternidade, Sara Sampaio Simões

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